Não ficar igual, nem sempre é não ficar legal!
Precisei pegar um pouco da Nutella, que minha irmã ama e a mãe dela deu de presente pra ela, para entender isso que vale muito pesar, em outros casos. Por ser muito formiga (não sei se isso é um paladar infantil, só sei que é o meu) eu sempre busquei aprender doces que gosto para fazer versões menos carregadas, de tudo que levam, em casa. Menos açúcar, menos glúten, as vezes menos dinheiro, mesmo que tenha que caçar muito um mercado granel barato para não pagar R$3,50 em um pacote de bolacha dos piores recheios... A Nutella, no caso, é uma receita feita a base de um ingrediente muito particular (e caro), a avelã, e mesmo que ela não seja nada sem esse gosto (eu diria) inigualável, ela superou o seu ingrediente central. Ela é importante a ponto do "contágio" e preço altos de seu sabor serem usado para representar pessoas, até mesmo infâncias, descoladas da realidade - e mais caras que a própria Nutella. Não tem como um alimento com esse peso, nos orçamentos, nos ingredientes, no que é colocado nele para que ele dure, não representar "receitas" que viram padrão, assim como necessidades, nem sempre tão urgentes assim, de seguirmos padrões.
Isso não é só sobre comidas que gostamos e que deixamos de tentar fazer em casa, comprando no mercado ou indo em restaurantes, por sabermos que não vai ficar igual. Isso também é sobre a nossa fixação e dependência de seguirmos padrões, nem que isso custe delegar possíveis aprendizados (e criações), para tudo. Reconhecer quando não podemos ter total autonomia, assim como reconhecer quando devemos valorizar conhecimentos, mais específicos, que outras pessoas têm a nos ensinar (seja em uma troca remunerada ou não) é muito importante para ganharmos o que não temos. Mas, aprender a assimilar pelos meios disponíveis, também é importante e pode nos deixar mais criativos, mesmo que também seja necessário saber até que ponto empenhar nossa criatividade tira o saber que outras pessoas tem - e que não temos.
O "faça por conta própria" é uma referência para mim por motivos bem específicos. Ao mesmo tempo que sempre tive condições muito boas (pelas quais deleguei muitas vontades e deveres por bastante tempo) , tive a melhor professora que, por ter tido desde pequena que se dar tudo que precisava, não deixou de fazer isso quando enriqueceu, e muito menos de me ensinar isso - minha mãe. Valorizar o que os outros sabem, assim como produtos de outros trabalhos, nos faz aprender a dividir protagonismo, assim como aliviar a carga quando tudo parece se concentrar ao mesmo tempo. Mas talvez também seja lado, esse ponto de vista de que os parâmetros para nos permitirmos fazer algo por conta própria, no nosso mundo em que o perfeccionismo, além de produtivista, é extremamente excludente, são muito rígidos. O capitalismo, a estrutura por trás disso tudo, não precisa só do perfeito e do produtivo para ser viabilizado, ele precisa dos excessos e exageros, sendo estes últimos muito bem formados por pessoas que tudo tem e tudo delegam, ou que abrem mão de muito pouco dentro do muito que permanecem concentrando. Como, em meio a um grupo dominante que teve de aprender - o básico - com uma pandemia, a limpar a propria casa e fazer a propria comida (e que deve já ter esquecido de tudo isso da mesma forma como voltamos a ter aglomerações), afirmar certas independências sobre aquilo que queremos? Onde existe muito dinheiro, também existe uma necessidade de uma resultados intactos por meio do que é feito e dado pelo outro, sendo estas, pessoas que muitas vezes tem de deixar objetivos maiores de vida para olhar para demandas que outras pessoas rejeitam.
Voltamos, portanto, a "estaca zero" em que não vale uma receita que não seja de restaurante especial, um cuidado estético simples que não seja ao menos improvisado (de forma independente) de vez em quando, ou até mesmo uma aula de atividade física, ou língua, que nos interessa, no youtube. Em meio ao exagero das funções concentradas, o que vence é o valor de não fazermos algo por não fazermos perfeito e como "deve ser feito", como normalmente costuma acontecer, na nossa era de "coachs" para tudo mas iniciativas - e disposições a errar para uma hora acertar - escassas. Se você não compra uma Nutella você não pode comer seu doce, e se você não frequenta uma atividade física você não pode fazer. Até o momento em que, se abrimos nossa percepção, passamos a usar nossa tecnologia a nosso favor e viramos um mosaico de todas as informações e fazeres disponibilizados por aí, e tomamos gosto pela autonomia que vem disso. Tanto gosto, que distinguimos tudo o que somos capazes de nos dar na mesma medida em que valorizamos mais o que escolhemos ter através de investimentos maiores em quem sabe o nosso não saber. Se não buscamos usar um pouco nossas mãos, afinal, como que entendemos o grau de empenho das mãos de outras pessoas nos dando algo essencial?
Receitas e produtos não são necessariamente a mesma coisa, porém, passam a ser quando o resultado pode ser apenas um só. Há casos mais urgentes, como o caso do tratamento de doenças, que precisamos contar, mais que com o previsível, o "previsto", a ponto de poder dar em imensas irresponsabilidades contrariar necessidades assim. Os excessos e exageros, contudo, além de nos levarem a pensar que não podemos fazer nada sozinhos e (para quem fazer tudo não é imposto) nos colocarem no delegar automático antes de cogitarmos em fazer algo sem tanta perfeição (mas com muito respeito e alguma autonomia) também estão aí para excluir identidades únicas que funções, produtos que geramos com nossa "inventividade", podem ter. Assim como fazer por si pode ser visto como um improviso, o nosso tão conhecido sistema do consumo desenfreado e não seletivo, que fala da importância de individualidades terem espaço (e coloca uma diversidade de mercado como condição, mesmo que empresas de maquiagem tenham levado anos tratando peles negras como inexistentes) condena os resultados imprevisíveis e individuais em meio ao que é vendido. Como é nele que dormimos e acordamos todo o dia, talvez você mesmo/a possa reparar em alguma coisa ou que deixou de fazer por uma cobrança que não veio de você, ou coisas que já faz e que tem uma marca só sua.
As vezes não é o meio de aprendizado de um saber ou de absorção de uma receita para determinado prato, penteado, até mesmo reforma caseira, que dá inconsistência ou resultados incompletos para a gente, mas a relação que temos com o que está sendo feito. O que vamos atingir vai depender do que queremos com aquilo e da importância que aquilo tem para nós, consideração que não pode ser abafada por uma necessidade de alvos previsíveis (um previsível que hoje tem outras caras, mas que chegou com as máquinas da Ford e, certamente, com a Disney) e muito menos transformar assinaturas particulares em mero desleixo. Como tenho meu exemplo, uso novamente apenas para ilustrar que fazer minha nutella, fazer minha unha, assim como não deixa de ser gostoso nem bonito por não ser igual ao dos "locais de fábrica", não me faz ignorar o que não sei e vou continuar deixando que outras pessoas saibam por mim. Na hora que quiser e puder pagar por uma bela peça de crochet, vou buscar com quem domina, e na hora que precisar cuidar da minha pele, já aprendi que quem conhece esse "órgão" é a tricologista que salvou meu cabelo (e que se tornou minha amiga). Descobrirmos o que fazemos por nós e leva a nossa marca, pode ser uma sensação libertadora e que ensina que tudo é troca; onde você não souber, você vai prestigiar quem domina do mesmo jeito que se permitiu valorizar uma receita ou produto caseiro. Seja Nutella ou não!
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