Um 17 de Outubro de 2025, com Gil, "os Gil" e Seu Jorge, pouco tocado em nossos celulares


       Como Gil diz em Louvação, “louvando o que bem merece”, ao contar sobre seu (pouco comentado) show de Tempo Rei, Sampa 17/10, não consigo deixar de exaltar os eventos de antes, muito menos os de depois. Era, a princípio, para eu estar no show de Gil e seu fruto, assim como eu presenciei de outra maneira, e mesmo não tendo estado lá, o tão lindo momento em que Gil e Roberto dividiram, entre suas diferenças de estilos, a simbólica “A Paz”.  A primeira vez que "testemunhei" esse comportamento comunicador, que dá voz para quem tem o que dizer, que reúne mundos opostos, de Gil, foi quando tinha 13 anos e ouvi Rita Lee exaltando a generosidade do amigo, responsável por colocar as guitarras de Mutantes em seu palco e passar a eles seus já imensos conhecimentos musicais. Depois, vivi esse dia 18/10, em que não estive, ao escolher na segunda feira seguinte justo um Roda Viva de 1999, em que Gil comentava muito serenamente sua relação com Roberto Carlos e revelava respeito em um dissenso, referente a recusa do último ao convite de gravar "Se eu quiser falar com Deus", nos anos 80. É por isso que acredito que, na vida, encontramos maneiras próprias de viver momentos emblemáticos sem ter estado neles, assim como criamos o nosso sentido para acontecimentos que não necessariamente convocam a catarse coletiva.    

      

    Falar de um show em que estive assim como de outro em que não, é o desafio de tomar Gilberto Gil como tema, “desafio” por ser uma tarefa de coerência. . Gil é tema do show que não só eu me dei, mas que ele deu a mim (e a muitos) em uma sexta feira de Oxalá. Falando não só de Orixás, mas também de física quântica e nunca nomeando seu Deus, Gil não necessariamente leva consigo uma família inteiramente feita na Umbanda nem no Candomblé. Mesmo assim, a postura em uníssono de branco naquele palco, fosse em uma sexta feira em que o patriarca parecia um Obatalá, fosse em um Sábado em que sua túnica vermelha remetia a um Exu de encruzilhada, era conservada entre Oris de touca branca. Assim como canções que não costumam entrar nos shows e nem serem ecoadas com tanta força (mesmo que dividindo espaço com importantes singles), como Punk da Periferia, de Extra, Feliz Por um Triz, de Raça Humana, Sandra, de Refavela, não tocamos tanto no show do último 17 de outubro, nas nossas redes sociais. É por isso, além do fato de não ter como não contar sobre um show de Gil em que pude estar, que me faz falar sobre aquela sexta de Seu Jorge que antecedeu um sábado de Roberto. 

     Falando em Orixá, essa diferença (que conserva também uma inseparabilidade imensa) entre Exu e Oxalá, é o que, para mim define o sentido de eu ter testemunhado a passagem de Gil, em São Paulo, não com a cor vermelha da encruzilhada que é a despedida de uma cidade, mas com a cor branca de um encontro - ou meio do caminho. Não ter conseguido ir ao já aqui mencionado show de 26/04 por uma depressão que começou no mesmo dia, nem ter escolhido o show do dia 18/10 em que Gil falou de cima e “de baaaaaixo” quando evocaram Preta em um só coração, foram os desencontros mais lindos da minha vida. Mas ter escolhido o dia 17/10, foi o encontro mais lindo, desde o momento que não consegui conter o choro ao ver Gil beijando Flora e saindo da coxia. 

    O que me importava, ao escolher o dia, não era quem seria o convidado. O que sei é que o sabor de não saber (saber e sabor, reparem, são feitos dos mesmos radicais de palavras, sab) quem Gil vai chamar é como receber um presente único justamente porque não anunciado. Ganhamos de Gil aqueles presentes que não pedimos, mas que são dados com a cabeça de quem dá pensando em quem vai receber, e sem perder a própria espontaneidade. Se eu não cogitava quem o acompanharia, diante do surreal que já era ter uma nova chance (diante da que perdera) de ver Gilberto no palco, o nome que eu escolhi foi o da parte da plateia que ocuparia, pois tive a grata surpresa de saber que cada setor do público levava o nome de um single: e fiz questão deste lugar, chamado “Aquele Abraço”. A canção é, nitidamente, para uns um hino de resistência ao exílio eminente e imposto a Gil e sua família, para outros, uma típica canção de verão, diante das versões mais aceleradas que ganhou. Para mim, Maria Victoria Fagundes, que sempre buscou a própria identidade e já a sentiu até mesmo abafada, significava “Quem sabe de mim sou eu/ Meu caminho pelo mundo eu mesmo faço”. Um hino de (da minha) autonomia.

    É engraçado como eu não contava que, ao deixar o meu coração seguir o passo de uma canção (em sua versão original, Gil 1969!), eu iria parar não na arquibancada, mas em pé, em pleno estádio, em meio a um mar de frente para o palco; quando formamos um mar na frente de Gil, não importa se estamos na beira ou pra lá da arrebentação. Ao sair da música que nomeava a plateia, e lembrar da que abriu esse show (a faixa Palco, do disco Luar), vejo que minha relação com assistir Gilberto Gil e sua família, testemunhar um trabalho de muitas faces a partir da curadoria (como mencionou o próprio patriarca) de Bem Gil a cada show, foi atravessada pelo vínculo que busquei com a discografia do pai, avô, bisavô. Tive o prazer de identificar rastros de faixas, escondidas nesse amplo repertório, tocados antes das músicas mais conhecidas. Uma citação da maravilhosa “Tenho Sede” (mais uma linda canção para a segunda esposa Sandra Gadelha, entre as muitas que permearam Refazenda e Refavela, antes mesmo do hit de UmbandaUm) era derramada pela sanfona convidada, para os ouvidos de quem conhecia e gostava. Foi reconhecendo essa doce melodia que entendi, era Gilberto Gil ali!


    Por trás de cada ingresso, se paramos para pensar, estava uma diferente setlist escolhida em segredo para nós. Não deixa de ser um pacto, e um belo pacto, confiar nas escolhas de repertório dos nossos cantores e cantoras. É também por isso que o bom de assistir, seja antes ou depois de um show de Tempo Rei, o conjunto de séries de Gil e sua família (Em Casa/Viajando com os Gil, na Prime Video) nas quais primeiro se preparam para a turnê europeia e depois embarcam juntos, é presenciar tanto na primeira quanto na segunda temporada o processo de escolha do repertório dos shows. Ambos, o jogo familiar banhado de significados pessoais (da parte de familiares músicos assim como dos membros de outras áreas da vida) em Em Casa com os Gil , sucedido, em Viajando com os Gil pelos diálogos específicos de quem sabia a dificuldade de  fazer escolhas em meio a uma longa discoteca, ilustram bem o que o patriarca atribuiu a Bem, naquele 17/10 de Oxalá. Feito grandes intérpretes, Bem transformou em suas, ao dar suas leituras, as canções de seu pai.


   A partir das “colagens” de imagens e vídeos ao fundo, acompanhadas sempre pelo DNA (representante de origem) que atravessa a turnê, Bem deu para a trilha de seu pai o que ele mesmo chamou de curadoria, seleção que além de alternar entre “rockinhos” (Conforme Gil repetia, "mais um rockinho!"), “Procissão” e Louvação, me apresentou a célebre “Nos Barracos da Cidade”. A canção, coincidentemente, viria a integrar um impasse na série que assisti após o show, quando os músicos e as musicistas se angustiavam sobre tirar “Barracos ou Esotérico”; só após me apaixonar por um arpejo desconhecido eu veria um dilema em “Viajando com os Gil”, no qual Bem perguntava para Preta, “Esotérico ou Barracos?”, e Preta optava pela segunda. Foi muito bom me identificar com Preta, mesmo depois do show, mesmo depois do palco. Naquele 17/10, além de colocarem Barracos e Esotérico no mesmo show, a equipe realmente me presenteou, pois além deste hit de “Dia Dorim noite neon” virar um dos meus preferidos, para mim foi uma imensa oportunidade dançar um ritmo semelhante a uma lambada dos anos 80 numa sexta feira a noite. Ainda mais, sem saber que isso ocorreria. 


    Não são, porém, apenas os/as instrumentistas do palco que ficam com dúvida sobre qual canção, de uma das mais longas listas de hits do Brasil, incluir. Enquanto públicos também nos questionamos, ainda mais em meio a uma turnê tão diversa internamente como essa, o que será afinal que faz um grande show? De quem e de quantos depende essa experiência de fazer uma multidão sentir a mesma coisa ao mesmo tempo, uma catarse? Particularmente, acredito que a emoção é composta pela capacidade de aproveitamento e observação do que cada momento pode dar. Como um coral que se ampara em cada uma de suas vozes, um show não depende apenas do que o artista entrega. Depende da nossa capacidade de identificarmos o quanto podemos extrair para fazer de uma experiência emocionante. Sem essa espécie de voz que vem do coração de quem ouve a música, shows (mesmo que não seja o caso deste em especial) podem ser prejudicados. E é justamente por isso que ao chegar no célebre escolhido para aquela sexta feira desse pai de muitos (Oxalá) Gil deu o maior motivo de emoção que poderia nos honrar: as histórias grandiosas por trás de um seus maiores singles, e a química inigualável com o convidado escolhido para esse hit que levaria a parceria. 


    Como toda impactante apresentação, tudo começou com uma história e, essa, contou com essa frase que é dita quando alguém fala de um importante acontecimento: “eu nunca vou me esquecer dessa mulher”. Ao dizer isso, Gil se referia a sua experiência no II Festival Mundial de Artes e Cultura Negras e Africanas em Lagos, na Nigéria, pouco antes de lançar o segundo “Re” de sua trilogia, o disco (com o hit homônimo) Refavela. Primeiro, remetendo a um avô ou griot, Gil narrou com detalhes sobre uma senhora, branca e argentina que, na capital nigeriana, levantou em meio a um dos eventos e disse: “a Argentina não mandou nenhuma delegação representando o país, em apoio à produção de pessoas negras. Mas eu faço questão de dizer que estou aqui, pelo meu país, para mostrar esse suporte”. Essa atitude, conforme compartilhado, marca Gilberto Gil de modo atemporal. Ao retornar para o Brasil, Gil viu nascerem os prédios que passariam a fazer parte da política de habitação nacional, os prédios do BNH (equivalentes de nossas COHABs paulistanas). Tal construção culminou na criação de um hit acompanhado de disco, de modo que a re-construção de uma identidade negra a partir da “refazenda” de nossas cidades (e do encontro com iguais) no fim, marcou o disco inteiro.


    Assim como Preta despertou esse sentimento, Gil se faz (como se fosse) um íntimo conhecido para tantos brasileiros, especialmente negros e mestiços por acabar sempre falando de uma situação comum, de muitos. “A Refavela, revela o salto que o preto pobre tenta dar/ De minha gente, minha semente, Preta Maria Zé João”, fala de famílias como a minha ao retratar a felicidade da minha mãe não só quando seus irmãos se mudavam para melhores lugares, mas quando davam outros grandes passos de ambição. Depois do encontro com uma cultura e filosofia com seu rosto, feita por corpos semelhantes ao seu corpo, Gil não só voltou para uma canção/disco que já o esperavam, mas também para traduzir histórias de ambições e sonhos, como bem disse, de sua gente, de outras pessoas que, como ele, sonhavam. Foi com um artista que veio a ter sonhos semelhantes aos dele, que Gil nos presenteou o hit desse seu segundo “Re”. O alto vestido de terno e sapato brancos, de óculos, era Seu Jorge entoando em alto Iorubá “Kiriê Iaiá!”. O DNA que atravessava o show e recebia diversos ornamentos e colagens ao longo das músicas, era nitidamente um código genético muito além da família, mas que se aplicava, também, às afinidades com ilustres convidados. O DNA era a própria e intransferível identidade. 


    O que mais vimos nessa colagem da Turnê Tempo Rei, o que mais vimos desse artista, alma viva e, mesmo assim, já tão ancestral, foi a sua capacidade de conexão e afinidade. Se o palco é sagrado a ponto de Gil, na letra homônima da canção que abriu o dia 17/10, com ele afugentar um inferno que nem acredita, foi no mesmo lugar que Gilberto Gil nos convidou para sentir o que ele sentia, ao gritar “canta comigo São Paulo!” no célebre hit Nos Barracos da Cidade. A essa altura, percebi que foram tão singulares as trocas e misturas, com tantos amores e afinidades, que eles perderam seus nomes. A alegria de viver, o ânimo (que nunca podemos perder) presentes em naipe de sopros proféticos e em um “Benjor, cadê você!”, em meio ao hit Gil/Jorge Ben “Filhos de Ghandi”, o beijo na mão da menina Iza após No Woman No Cry, no dia 17/10 teve uma imagem linda e, se repararmos, muito pouco divulgada. Para mim, essa imagem foi como um toque dançado entre Gil, semelhante a um Oxalufã, e seu Jorge, um Oxaguian com uma flauta transversal, e ambos representando todo o tempo e paciência que fazem parte de ser um Oxalá, seja novo, seja ancião.  


   Também precisamos de paciência e menos engajamento para reparar naquilo que pode nos emocionar, por mais subjetivas que catarses sejam.  Como foi lindo ver gerações tao diferentes, linhagem e ancestralidade, ocupando um lugar tão semlhante e de tanto respeito... quero ver  essa dança de tempo, os novos Seu Jorge, Iza, Ludmila, assim como Benjor, e Geraldo Azevedo, quantas vezes for possível. E o Gilberto Gil que conhecemos ainda consegue surpreender com sua longa despedida; com o show de encerramento programado para “sampa”, 28 de março de 2026, e com toda família o acompanhando, depois de tantos convidados, um “Ágil Passarinho”, um Carlinhos Brown parente da família, Gil não desce do palco em que sobe, e muito menos para de cantar para nós. Eu só agradeço, e acho que não sou só eu. 



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