Conforme eu pegava o ônibus São Paulo Rio Serra das Araras abaixo, a caminho de um bate volta para presenciar a despedida de Preta Gil, eu lia a notícia de que Ângela Roro, (também) tão, mas tão cara pra mim, estava internada em estado grave no hospital, na mesma capital. Eu não só sabia que seria como eu queria que meu tempo, no Rio de Janeiro, fosse curto. Dia 26/7, logo após aquele 25/07 dia das mulheres pretas latino americanas e caribenhas (como nossa Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, sua filha - e minha professora de ballet- Bethania Gomes), eu teria o aniversário da minha pequena prima, e precisava ver ela e minha família materna. Estava como um estômago sem fome de vida, devido a uma depressão grande e sem precedentes. Ainda assim, os significados de Ângela e sua voz (tanto quanto de seu piano a altura de Roberta Flack e Nina Simone, também donas de vozes únicas), para mim, além de despertarem uma preocupação sobre seu acompanhamento em um momento tão difícil, me davam vontade de levar flores para ela, assim como me planejava para jogar uma rosa amarela de Oxum para Pretinha Maria.
A relação que vejo entre essas mulheres que partiram de uma forma muito próxima (e tinham muitas semelhanças entre si, como sua coragem), do mesmo modo que a grandiosidade de seus repertórios e composições, tornam Ângela Rorô e Preta muito maiores do que quaisquer acontecimentos ou realizações meus, ou de outra/o fãs. Como aprendi com Milton Nascimento desde cedo, “todo artista tem de ir aonde o povo está”, e onde mais, em que melhor lugar que Preta e Ângela poderiam estar, que não as nossas playlists individuais ou compartilhadas !!! Não levei flores para Ângela, de uma fã, no hospital. Mas me vejo dando flores para ela desde que a ouço e me inspiro no seu timbre, desde meus 16 anos. Artistas, de igual maneira, estão nos lugares em que estão sendo escutados/as, toda a vez que ocorre um click em uma faixa, do mesmo modo que Jesus condicionou à partilha de um pão entre duas ou mais pessoas, a sua presença. Pode ser ingenuidade, mas prefiro ver isso como uma forma de conexão e prestígio de quem faz a diferença. Uma forma de exaltar e contribuir para a permanência de um legado.
Isso é sobre minha forma parecida de me conectar com figuras também tão parecidas, mas também é sobre convidar a quem ouviu tanto a voz de Preta Gil quanto a voz de Ângela a vibrar pela sua união neste porvir, que faz parte de ser (quando se acredita que se é) espírito. Ao saber dessa delicada partida de Ângela por ter sido delicado o contexto em que, ao que parece, partiu (em que estava debilitada e, a princípio, sem o amparo que sem dúvida alguma merecia e precisava), não consegui não unir as viagens eternas. Não consegui não concatenar dois desrespeitos que viveram, Preta e Ângela: a vulnerabilidade que é ser mulher em si e, ainda mais, estar vulnerável diante de uma doença, principalmente física (algo muito mais invasivo). Mulheres vivem a fragilidade de, não suficiente em serem desrespeitadas enquanto estão saudáveis fisicamente, serem descuidadas quando estão no máximo de sua fragilidade, uma vez doentes.
Ângela, afinal, disse “tola foi você ao me abandonar desprezando tanto amor que eu tinha a dar”, sendo consequentemente um poço de afeto e amorosidade, o que Preta também era, e não de fachada, não de bandeira, não do jeito que é legal falar de amor nos contextos progressistas das redes sociais. Eu me refiro ao amor que se tem com o comprometimento, coisas que começam com a simplicidade de você ir até casa do seu amigo ou amiga para que não seja só a outra a ir até você; é troca, troca que nem, para quem crê, Exu. Preta falava de amor, segundo sua melhor amiga Carolina Dickman, a parafraseando, com “amor é ação”. Até onde mulheres assim como as que eu quis reverenciar (quis levar flores para Ângela, quis jogar uma rosa amarela quando o caixão estivesse sendo carregado com Preta) foram por causa de amor? Esse amor que, como dizia Preta, é ação?
E eu não termino essa relação apenas pela semelhança de suas, como disse o pai de Preta, respectivas “caminhaduras”. Quando eu percebi o quanto, o quão bem Preta Cantou, eu só lembrei de como Ângela Roro, desde que eu a ouvi pela primeira vez adolescente, me ensinou ao cantar. Ao pensar nas duas concluí que ambas sempre terão, enquanto alguém clicar em suas faixas, de ensinar a cantar só, simplesmente, cantando (coisa que é para poucos que tocam um instrumento, ainda mais um como a voz).
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