Hoje é 26 de Março e, no Copan, penso no Gil, para dia 28
Hoje, a 72 duas horas antes da turnê Tempo Rei se encerrar (a princípio) definitivamente, Gilberto Gil não consegue sair dos palcos de tanto que faz shows. Ainda assim, seu lindo rosto marrom carrega muito mais história, além de uma sequência de belezas como essas, por trás dele, de um jeito que sua serenidade intocável é mais poderosa do que certas terribilidades impostas à uma história tão grande. Pouco antes do Refavela (1977), Gil era colocado em um manicômio, um lugar triste como seus tratamentos, por porte irrisório de maconha. Como de todo ciclone (feito alguém que escreve "como se um vento de um tufão"), mesmo não sendo filho da mãe Iansã que ensina a dançar perante a ventania, Gil não só tirou uma das músicas (e declarações de amor, além de Drão, para Sandra Gadelha), mais lindas do Refavela, como também tirou o vício do famigerado "chafé". A bebida, eu lembrei não só por estar a poucos dias do palco do Allianz Parque. Em uma quinta feira de Oxossi e tarde chuvosa no centro de São Paulo, tive a chance de justamente tomar um café, sendo esse um de meus maiores prazeres. Denso, com leite espumado e canela. É por isso que enquanto ocupava uma bancada de mármore bege, do tradicional café Floresta, me perguntei: será que Gil também aprecia sentar em cafeterias para tomar um café, e será que um copinho da água que vem ao lado dilui esse mesmo café e mantém uma tradição?
"Salete fez chafé que é um chá de café que eu gosto/ E naquela semana tomar chafé foi um vício"
Sou realmente muito romântica, e por isso monto cenários que, mesmo não sendo fatos consumados e cotidianos, transformo em crônicas. Por um desejo e curiosidade que provavelmente ficarão comigo, me perguntei sobre os cafés, ou na mesa de manhã ou nas cidades e países que visitou, que Gil tomou desde que passou a semana em que "tomar chafé foi um vício". Feito um amigo de Gil, como Milton Nascimento, se perguntando na canção Beatriz sobre "a casa da atriz", me perguntei se entre tantos cafés e, lugares e anos o "chafé" permanecia o mesmo na preferência de Gil, porque o que queria mesmo era apresentar a ele (assim como conhecer com ele) os meus lugares para tomar café, ainda mais nessa cidade que ele tanto gosta de chamar de Sampa. Acontece que assim como café forte com leite cremoso é a minha preferência, é da vontade de uma pessoa tomar ou não café com a outra. A única vontade que conheço, de um café com Gil, fora a de outras pessoas que certamente sentem afinidades com como Gilberto se mostra, é a minha, quando eu sou a que sabe que um café tem de ser uma vontade mútua. Vontade vem do íntimo de alguém, e se há alguém que é um alguém, esse alguém é o Gil.
Como diz esse grande amigo de Gil (Milton Nascimento) em Beatriz, entrar na casa da atriz significa encarar não só sua intimidade, mas sua humanidade. É algo que exige nos depararmos com essa dualidade de uma pessoa que, mesmo do público, permanece uma única e, como tal, não quer se cercar de todo mundo, nem ter desconhecidos próximos a todo momento. Java, minha mãe, teve decepções ao encontrar pela segunda vez uma grande ídola (por sinal, grande amiga de Gil) que, da primeira vez em que o acaso as aproximou, fez Java chegar chorando de emoção em sua casa. Ao imaginar Gilberto Gil, nesse quadro de partilha de um dos meus maiores prazeres, me parece o certo com ele (e comigo, enquanto fã com grande afinidade) lembrar que este simpático senhor é uma pessoa que como qualquer outra, toma café, de manhã, quem sabe após o almoço, além de alguém com quem o Brasil inteiro gostaria de tomar um café e conversar. Um café vira pretexto para refletir sobre isso, o quanto precisamos separar a arte de quem a faz (por mais que ela venha do mais pessoal de quem a faz) por conhecermos apenas as obras das pessoas que, mesmo atingindo resultados imensamente pessoais (falando de si mesmas ou não), permanecem fora do nosso convívio. Em parte, ainda assim, quando ouço "Quem sabe de mim sou eu", "De qualquer lugar do mundo vejo minha torre", "Astúcia de caçador, paciência de pescador", fora falas em documentários e entrevistas, por motivos de Maria Victoria amaria tomar um café com Gil, no Copan ou no mundo que São Paulo é. E afinal quem, pelos próprios trechos de uma canção do Gil, não quereria?
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