Homem com H dá vontade de cantar ou “O gosto da semente que morava em mim”





Assisti a cinebiobrafia de Ney Matogrosso duas vezes, e a segunda não deixou de me dar novidades. Entre essas diferenças, assisti pela segunda vez, no dia do aniversário da minha mãe que já não está aqui, e ela sempre dizia como a canção Sangue Latino era um hino pra ela na sua adolescência (músicas tem essa capacidade de nos acompanhar uma vida inteira). Minha mãe também admirava muito o Ney, a relação que ele tinha com sua masculinidade. O que eu sei é que o Ney era uma escolha no rádio do meu pai e minha mãe, e eu tive muita sorte das escolhas deles desde cedo serem as minhas também. Pois mesmo que não tenha sido logo naquele momento, o Ney é uma das grandes vozes que na vida adulta me deu vontade de cantar, que me fez ter dimensão de como nossa voz é passível de ser explorada. Afinal, Querer fazer qualquer coisa, mas ainda mais arte, também é sobre isso: ver alguém fazendo muito lindamente e querendo fazer igual, a capacidade de sentir a fagulha da inspiração. Exemplos e inspirações couberam na vida de Ney que deu o filme Homem com H.






 

Quando pensamos na vida de um/a artista não é difícil começarmos suas histórias, nas nossas cabeças, com suas inspirações e quem estava à sua volta em suas infâncias, justamente, os exemplos. Exemplos não  são apenas algo bom ou ruim, mas sim as pessoas que vieram antes, nos criaram e influenciaram o que viramos. Se o filme começa com a natureza anunciando esta como eterna companhia (e tema) de Ney, o tratamento duro de seu pai o distanciou da vida desenhada para homens desde meninos, em meio ao machismo e homofobia recrudescidos dos anos 50, e o empurrou para um universo particular e íntimo que negava tanta violência e começava nos desenhos lúdicos de uma criança solitária porque calada. Em um desses, quase sem querer, descobriu uma mulher que se mexia e se vestia como uma onça; a viu no palco e captou em Elvira Pagã (no filme, representada pela cantora Céu) muito mais do que não queria, mas o que queria fazer. Ser artista. O nascimento deste artista, como se conta, não coube na negação da patente de seu pai nem nos fazeres de um pelotão, mas sim na violência que o impedia de ser o que queria; ele mesmo. O exemplo do comportamento de seu pai é mostrado como algo que acabou levando o filho a identificar suas inspirações, inspirações estas que, músicos ou não, amizades, produtores, falavam de amor. Como o diretor Esmir Filho marcou em entrevistas, o afeto inspirou (e inspira) esta obra sobre Ney. 

O filme revela que, mesmo tendo alguns contatos com ela, Ney demorou para “chegar” na própria voz e que houve um longo caminho com outros tipos de descoberta para que Ney de Souza Pereira trouxesse Ney Matogrosso para os palcos. Foi soldado da aeronáutica, enfermeiro, e antes mesmo de chegar aos palcos como ator criou jóias e figurinos para quem representava. O trunfo do filme tanto enquanto narrativa quanto devido a “informação” para os fãs do intérprete é mostrar que Ney, em diversos momentos da vida, foi (teve de ser) literalmente apresentado à própria voz. Uma espécie de surpresa, que é se ver cantor ao conhecer os integrantes da banda “Secos e Molhados”, é sucedida pela outra surpresa (descrita pelo próprio Ney em entrevista dada à Marília Gabriela nos anos 90) de ver a rápida ascensão do grupo e, com isso, se perceber muito mais que um vocalista de uma banda comprometida com um só estilo musical e comportamental. 

Em Homem com H, o Ney Matogrosso que contou à Marília Gabriela que sua transgressão nos anos 70 não era apenas política teve sua “jornada do herói” bem narrada; se fez homem, personagem além do próprio Ney no palco. Na história, sua grande amiga, cantora e compositora, Luhli (da dupla que viraria Luhli e Lucina) tira para ele o tarô três vezes diferentes, nas quais aparece a carta da morte, que significa recomeço, renovação, da mesma forma que o cantor passou por diversos “começos” em sua trajetória, tendo sido o início de sua carreira solo um deles. Ir muito além das faces pintadas e cortadas que até hoje os discos dos Secos e Molhados mostram, foi o que distinguiu Ney de qualquer banda e qualquer intérprete quando apenas ele passou a conduzir seus shows. Assim como Bowie usou um vestido em um de seus primeiros álbuns sendo apenas Bowie, a personagem (feito a pessoa) Ney cresce, na trama, em meio à liberdade do cantor tanto com seu corpo nas performances quanto com seu repertório.

  De um “Homem de Neanderthal” em 1975 vestido de bicho, a outro que encena e canta “Pedra de Rio”, de seu primeiro disco solo, já nos anos 90, usando apenas uma borboleta no ombro, Jesuíta Barbosa (Ney, desde que saiu da casa do pai e da mãe) e Esmir Filho lembraram de modo muito verdadeiro o Brasil deste artista que, nas palavras dele mesmo, nunca foi possível de ser dirigido. Um homem que vimos, em seu tom raro segundo o maestro do coral no filme, cantar de “Nada por mim”, de Marina Lima, até “Bloco na Rua” de Sérgio Sampaio, canção que em sua própria voz encerra sua cinebiografia. Ney Matogrosso, feito Odisseu que chora ao ver sua história contada por um aedo ao retornar da guerra, esteve presente na história que contaram sobre ele antes mesmo de cantar nela em seu fim-  sobrevivente de guerras ele também. Em um roteiro feito de diálogos imensamente certeiros, mais uma importante amiga diz para Ney, no início de sua carreira solo: “a gente te quer vivo. Quente!”, ao que ele, através de Jesuíta Barbosa, responde “eu quero isso também!”. Que bom que ele quis, para podermos, como queremos com qualquer grande ídolo nosso, celebrá-lo com ele aqui. Vivo, e quente, como são seu corpo, sua voz, sua interpretação e seu signo em Leão. 


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