Um "mundo da lua" não é uma imagem única. Ele pode representar essa tendência que muitas vezes nos atrapalha, de nos refugiarmos em uma idealização (e vontade) pessoal e improvável de ser realizada, mas também pode comprovar até onde vai nossa capacidade de criar novos mundos e transformar o que existe. Criar mundos (e realidades) pode resultar não só de movimentos escapistas e ingênuos, mas também dessas duas premissas, a de acreditarmos em novas possibilidades e de vermos em mínimas e inusitadas ferramentas chances de erguer o que vislumbramos através delas. Essa mentalidade precisa de cuidado para desviar de discursos individualistas, munidos da ideia de que para ser como Walt Disney basta ver poesia em uma barata numa gaveta e gostar de desenhar, desconsiderando todas as outras facilitações que revelaram um adulto que gostava da infância (e que certamente excluíram outros semelhantes a ele). A criatividade de uma pessoa, mesmo não agindo sozinha em garantir todas as necessidades de alguém, a acompanha e dá soluções autorais para as demandas desse nosso mundo, em que mesmo em meio a tanto egoísmo, autenticidade e coragem para sermos quem somos nos faltam, e muito. Foi o que aprendi mostrando a primeira versão da série, recentemente refilmada, "Mundo da Lua" para minha irmã de seis anos.
O episódio piloto é o aniversário de Lucas Silva e Silva, e além de apresentar o mote do seriado (as histórias alternativas- ou diário de bordo- que Lucas inventa no gravador que ganha) fez com que minha pequena lembrasse do seu aniversário que está por vir. "A idade dele são os dias que faltam pro meu aniversário!", ela disse. Os dez anos do protagonista não recebiam apenas o prestígio e a importância de seu carinhoso pai, sempre beijando a bochecha do filho. Lucas, com seu aniversário, ganhou o maior dos presentes: o de fazer presentes, algo não se desgasta com o tempo. Para mim é o que representa um caderno, para outras pessoas o que representa uma câmera fotográfica (ou tintas a óleo e telas), para Lucas era o som incorporado no gravador de rolo que seu avô, de última hora e a partir de um total imprevisto, resolveu lhe dar. Na vida e na realidade não podemos contar apenas com a falta de novidades para lembrarmos do que já temos e que, se não cuidarmos, podemos perder. A ficção, mesmo assim, foi essencial para me ajudar a ilustrar para minha pequena a importância de reinventar e dar novos sentidos para o que já está na mão, principalmente quando falamos de objetos que servem de suporte para nossas ideias.
O diário de bordo, que foi a ideia de Lucas, teve como sua primeira edição justamente a versão de festa que o aniversariante queria, uma comemoração preenchida pelo oposto do que foi e com todos presentes almejados por Lucas; jogos, video games, ambas as rodas de patins e skates. Conforme a campainha da casa tocava e os novos presentes eram anunciados, eu dava o spoiler para Mariana: "você vai ver que tudo que ele tá imaginando vai ter um preço!", e de que aquele desfile não duraria tanto assim. Ao mesmo tempo, eu reparava que as teclas coloridas do gravador de Lucas ainda existiam e, hoje, eram mais recorrentes do que pareciam, tendo se mudado junto ao gravador de voz de nossos celulares, escondido em meio ao consumismo dos nossos atuais aplicativos. Do mesmo modo que o menino vivia a contradição de falar de presentes que rapidamente seriam esquecidos através do mesmo suporte que, sendo meio de criação, já era atemporal, este "ter" ainda mais assediador dos nossos tempos (em que tudo parece se poder mas pouco realmente se tem) passou a me cobrar com a seguinte ideia: "como não usar o seu celular para também criar as suas edições e seus mundos! Como não usar suas facilidades ainda maiores para contar, como dizia o próprio Guarnieri, suas histórias!". Esse excesso de opções nos ensina por não precisarmos delas todas, mas também por nos obrigar a distinguir, no meio dele, as opções que temos de aproveitar e honrar. Esquecendo dessa disponibilidade, afinal, também corremos o risco de sermos ingratos/as.
Naquele momento, era essencial que uma caixa e um rolo de fita (assim como máquinas de escrever e computadores de mesa) fossem apenas eles mesmos para que uma criança se concentrasse neles e criasse mundos que duram até hoje, em que é tanto ao redor que este tanto parece nada. Eu mesma invejo Lucas e, enquanto escrevo esse relato, me pergunto o quanto ideias minhas poderiam ser mais exploradas se tivessem efeitos de som como aqueles do gravador do menino Silva e Silva. Um Mundo da Lua, como disse no começo dessa coluna, pode ser um cenário que não se sustenta, que combina desejos pessoais nossos e vontades que nem nossas são, mas apenas imagens hipotéticas que o mundo e suas exclusões converte em metas nossas. Esse mesmo "território extra terrestre", por outro lado, também pode ser nossa chance de criar mundos com nossas vontades reais e ainda mais flexíveis. No fim, é com um gravador, com um caderno, uma câmera ou um pincel que aprendemos que o que mais temos de precioso é o que nos ensina a reinventar o que já temos e a usar de nós mesmos.
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