Luhli, Lucina e os refúgios da nossa MPB
Luli e Lucina, há muito tempo, fizeram parte da minha playlist. Na mesma época que descobria nomes da Vanguarda Paulistana, descobri a dupla de cantautoras do então Mato Grosso e Rio de Janeiro, reincidindo em canções como a belísssima “Me rói”. Como tudo que ouço, a dupla já foi companhia para mim. Luhli e Lucina fazem parte do panteão da música brasileira, feito de nomes popularmente conhecidos e outros que apenas um nicho muito específico de ouvintes alcança. É por isso que pergunto: o que faz, em uma “música” tão complexa e misturada como a brasileira, de uma música popular ? Faço tal provocação após assistir a cinebiografia da vida do Homem com H, Ney Matogrosso, e me surpreender com o fato de que sua amiga Lujhli, fundamental na história do intérprete, era a mesma que eu ouvia na dupla “Luhli e Lucina”nos meus 20 anos. Minhas surpresas não acabaram quando, ouvindo a discografia de Ney após ver o filme, fui perceber que fora a canção que mais amei no disco ser de Luhli e Lucina, ela se tratava justamente da famigerada “Me Rói”, na voz dele. Mesmo não respondida a pergunta que me fiz, sobre o que faz de uma música popular, cheguei a resposta que me fez explorar Luhli e sua parceira Lucina e, com isso, concluir que diferentes estilos de tocar uma mesma composição tem que caber nas nossas escutas pelo simples fato de existirem. Algum espaço tem que ter! Essa, afinal, é uma das graças da MPB, feita tanto de cantautores, quanto de compositores, quanto de grandes intérpretes (como o Ney): dar versões completamente diferentes para uma mesma canção, e também dar opções para todos os ouvidos se identificarem.
A vastidão da MPB, ao permitir que ouvintes se identifiquem e nomes se expressem, forma identidades tanto de quem traz sons ao mundo quanto de quem os recebe. Isso tem que ser valorizado e respeitado nos dois casos, no gosto de quem consome e no estilo de quem faz música, independentemente de seu tipo. Há, no entanto, um difícil contraste na nossa MPB que não pode ser ignorado: ao mesmo tempo que é preciso celebrar a popularidade e grandiosidade de mestres e mestras, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton, Bethânia, também é preciso lembrar de quem habita esconderijos, sendo artistas, também, de suma importância para a nossa diversidade. Estes nomes fazem parte dos seguintes grupos que tem maior ou menor repercussão: quem faz música com estilos diferentes do habitual (Tom Zé, Jards Macalé, Vanguarda Paulistana por exemplo) e ainda assim tem seu público fixo e específico, e, de modo muito lamentável, quem não tem seu trabalho reconhecido devidamente e é apagado por discriminações, como oracismo (o caso de Alaíde Costa e e Johny Alf, na Bossa Nova, e Wilson Simonal, “linchado” pela “classe”) . O amor que precisamos ter pelo nosso “cancioneiro nacional”, como fazemos com qualquer relação pessoal, não pode desconsiderar que nossa música não é perfeita. O que ouvimos (ou ouvimos pouco) no Brasil reflete nossa sociedade construída em cima de exclusões e injustiças, não há como separar.
A dupla Luli e Lucina combina os casos. Mulheres que tiveram e têm a recepção de um grupo singular que, por sua vez, costuma ter muito acesso à informação. Mesmo com seus próprios espectadores, suas vozes ainda precisam ser bem procuradas. Esse fato, inclusive, reforça a importância do reconhecimento que a cinebiografia de Ney deu a sua amiga, por mostrar o quão generosa Luhli conseguiu ser quando esta não sabia se receberia as mesmas chances. Seu gesto revelou um princípio precioso vindo da cantora/compositora (e escritora), o de que o que importava para Luli era a música, viesse dela ou não.
A atrofia que acomete uma voz sem eco, ainda assim, não teve como não ser sentida, principalmente em face do que a música representava desde cedo para Luhli, quando esta era só Heloísa- a pequena Heloísa. Segundo matéria de Lívia Nolla, para a rádio Nova Brasil FM, quando Luhli era pequena a tinha asma (faleceu em 2018 de insuficiência respiratória) e por isso não podia brincar, o que a levou a ganhar um violão. Conforme seu amigo de sempre, Ney, a quem ela sempre lembrou que ele tinha que liberar sua voz, ela viveu dos seus violões, dando aulas em sua casa em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, queria poder compor e cantar além de ensinar. Queria poder ser ouvida compondo e cantando. A mesma matéria que descreveu o violão como companhia e condição de expressão para Luhli, revelou ao mundo como ela lidava com a frustração que era se sentir sem audiência. Ela se comparava a frutos de uma árvore não comidos que caíam no chão e se tornavam adubo para florestas, se referindo ao ofuscamento do seu repertório com Lucina. Músicas são uma forma de comunicação e, assim sendo, precisam dialogar com o que os ouvidos estão dispostos a escutar. Ao mesmo tempo, porém, há sons que mesmo destoando do comum, são uma oportunidade justamente por o que tem a acrescentar de novo. Em apenas dois discos, as canções da dupla são como convites que nos levam a conhecer, por exemplo, o ambiente da casa de campo em que viveram, com o fotógrafo Luiz Fernando.
Chegar na atmosfera que Luhli e Lucina constroem, realmente, não depende apenas de um clique no Spotify ou Youtube. Ao mesmo tempo que suas canções ainda repousam dentro da pluralidade da MPB, além de Ney Matogrosso popularizar em sua voz faixas como “Me Rói” e “Coração Aprisionado”, reiterando, é na recente cinebiografia do intérprete que é lembrada a importância de Luli na sua história. Através de “Requiem para Matraga”, de Geraldo Vandré, é Luhli que apresenta o amigo à sua própria voz. Ela não só insistiu para Ney, que demonstrava grandes objetivos com a atuação (com ela respondendo “mas tudo não é teatro?”), o quanto ele precisava experimentar essa faceta, como o levou a fazer isso com a banda na qual, de algum modo, se descobriu intérprete: a então dupla Secos e Molhados. Enquanto hoje vivemos com as redes sociais que facilitam a comunicação mas afastam relações, a instrumentista facilitou foi o início do caminho artístico do amigo, que depois se tornou uma das vozes mais tocadas (e tocantes) do Brasil, sendo ela alguém que já buscava seu espaço na música. Com isso, jamais se calou.
A vida adotada na trajetória de cada um desses nomes, e ao mesmo tempo dos três juntos (Luhli, Lucina e o fotógrafo Luiz Fernando) ilustra bem o que significou a contundência do trio, junto a união a três que haviam encontrado. O sítio em Mangaratiba não representou apenas uma autonomia nos costumes, com a comida da família plantada e as roupas das crianças que as mulheres tiveram, costuradas por Luhli. Foi a mudança radical de estilo de vida que originou o selo “Nós lá em casa”, tendo a casa sido transformada na própria gravadora e produtora da dupla após grandes decepções com marcas que ignoravam seu trabalho, com o disco "Luhli e Luciana" resultado deste contexto. Como disse uma boa amiga e guitarrista da dupla, a Lucinha Turnbull, sobre a existência de “hippies de boutique”, naquela época era muito fácil que características do movimento como autonomia, simplicidade, fossem subtraídas com a mera adoção de uma vestimenta. Mais do que refletir o comportamento de uma um momento histórico, a iniciativa que começou em um sítio auto-sustentável foi o que permitiu a inclusão de Luhli e Lucina entre a Música Popular Brasileira como as primeiras musicistas independentes, quando os meios para a independência na música não eram os de hoje.
A Independência como princípio e “faça você mesmo/a” como postura são um par de características que revelou e deu muitos artistas para o Brasil em todas as linguagens. Do mesmo modo que na família da pintora Maria Auxiliadora da Silva a casa era decorada com os quadros e bordados da pintora, sua mãe e irmãos, o trio por trás do selo “Nós lá em Casa” não deu a si mesmo, apenas na própria casa, o que as gravadoras lhe tiravam. Tudo que saia de Luhli e Lucina começava em um gravador de rolo de modo que a criatividade da dupla era convidativa para quem cercava as mulheres e sua família. O que mais adiante daria em camadas de instrumentos (e amizades) adicionadas ao disco primeiramente gravado por elas (conforme disse Lucina a Charles Gavin, “a gente ia curtindo a instrumentação de cada música”), começou com uma Kombi equipada como palco, na qual Luhli Lucina, Luiz Fernando e mais dois amigos fizeram turnê através de uma tenda branca armada em frente ao veículo, acompanhados da luz e do som armados, no teto, pelo fotógrafo. Foi esse o primeiro caminho que deu a ressonância das canções do LP de 1979 para o Brasil inteiro, com discos vendidos que, conforme Luhli, “criaram as crianças”. Não importava com qual delas a voz, o violão, a música começava, pois com o par, ela não tinha fim.
Luhli e Lucina fizeram do som (e deram para a ele) a única coisa que sabiam: ser a si mesmas, criando o que, em todos os sentidos, acreditavam. Com grande generosidade, compartilharam esse fazer com grandes parceiros, como Ney, deixando suas canções voarem até mesmo sem elas, pela MPB. Mas souberam- assim como Lucina permanece fazendo- usar sua própria voz.

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