Construir Castelos e não deixá-los cair

 Falo mais uma vez de músicas de amor para falar de românticos. As vezes parece que só românticos entendem a si mesmos e ao que sentem, e ao invocá-los não me refiro apenas aos que sentem amor romântico por alguém, mas também aos que sentem esse tipo tão inspirado de amor por vários outros estímulos da vida e que, por isso mesmo, são tão insondáveis em seus sentimentos. Cazuza foi desses sem dúvida. Para comentar sobre esse traço de personalidade dele, nesta humilde coluna sobre alguém que existiu, talvez fosse melhor me apoiar em peças documentais. Ocorre que, para quem se interessa por se aprofundar nas obras de cantores/as e compositores/as, a própria obra acaba sendo um documento sobre a personalidade do artista, principalmente quando nos propomos a entender o que a pessoa quer dizer com uma canção. Foi isso que me propus a fazer com o cantor a partir de Medieval II, segunda faixa do álbum Exagerado, pelo qual Cazuza não só passou a dar vazão completa a sua personalidade como também, conforme confirmado pela canção que abre e dá título ao disco, ao seu romantismo generalizado justamente. 

 

Medieval II, para mim uma metonímia da passionalidade de Cazuza, foi só o começo da minha vontade de entendê-lo justamente pelo eu lírico da música se demonstrar um romântico incompreendido. Tenha sido no microfone Cazuza ou seu eu lírico, obras podem ser documentos a respeito da personalidade e vida das pessoas por trás dessas criações quanto maior a intimidade com a criação em si, quanto mais a pessoa se propõe a se aproximar de si mesma e ser quem ela é através do que produz; quanto mais essa sinceridade é capaz de acessar quem consome linguagens. Desse jeito, falando de nós e nossas verdades não necessariamente somos egoístas quando a honestidade de um convida a do outro. É por isso que escutando a letra da segunda faixa que, na minha modesta opinião, é a mais romântica de “Caju” (o apelido do apelido de Cazuza, segundo algumas fontes), sinto ele falando de si mesmo muito mais do que ele falando si ou outros falando sobre ele em entrevistas. Ainda assim, fatos são fatos, e como tal, muitas vezes envolvem aquele/s que não é/são a gente mesmo. Envolvem outras pessoas e outros pontos de vista.

Não consigo evitar, ainda assim, de "construir castelos" sobre Caju e sua personalidade, de criar um só para mim (não é isso que fazemos com quem admiramos?), pois todas as vezes que coloco essa canção, que me leva a concluir meu ano com um pequeno relato sobre Cazuza, é como se o próprio a cantasse e, com isso, conversasse comigo sobre nossas personalidades. Quando nos identificamos com algo ou alguém parece que estamos trocando segredos. Segredos, conforme diz a canção homônima de Frejat  (muito necessário para Cazuza dentro e fora dos palcos), são o que temos de mais íntimo. A identificação, afinal, também tem o poder de fazer as pessoas se acessarem de forma íntima. Ao ouvir “as vezes eu amo/ e construo castelos”, “eu acredito nas besteiras que eu leio no jornal, eu acredito no meu lado português medieval” me aparece alguém que sente, sente amor, de forma tão forte e singular que, posta de lado a carga pretensiosa e vazia que a incompreensão assumiu nos dias atuais, só essa pessoa entende a si e aos próprios sentimentos, como os românticos mencionados há pouco. Gente dotada de coragem para falar o que realmente pensa e sente em obras de arte, com tal transparência, não só é na verdade compreendida por outras pessoas como as faz se sentirem entendidas e entenderem a si mesmas. Isso não é falar apenas consigo e é de uma imensa generosidade. Se é inegável que diversos perfis de pessoas conseguem escutar o que ele diz e se escutar, ao ouvir Cazuza no rádio ou no celular, é inegável que esse ser humano espalhava gentileza e amor muito além de sentimentos afetivos.

Ser humano, porém, é ser humano e ser controverso portanto. E pelo adjetivo não me refiro às controvérsias perante parâmetros hipócritas que não são nossos. Digo da controvérsia consigo e com os outros. Reiterando, fatos permanecem fatos e a vida de Caju tem muitos, inclusive de um homem que fora transformado e ressignificou seu canto a partir dos limites do corpo.  Johnny Hooker e Liniker  hoje dizem que “ninguém vai nos dizer como amar” graças a posturas de gente como  Madame Satã, Ney Matogrosso e Cazuza. Ele, conforme todas as fontes que expõem fatos sobre seus relacionamentos e sua vida artística, amou de todos os jeitos possíveis, ainda mais sendo alguém que amava tudo que fazia parte de sua vida, o que podia ser destrutivo para quem queria amá-lo apenas. Hoje, o comportamento do amor livre foi apropriado por desculpas fajutas e personalidades inautênticas; mas Cazuza, efetivamente, era o que mostrava. Se escondia de si, através de seus gritos nas músicas, de sexo e drogas, por medo, mas sabia disso (o conta de forma muito lúcida, já acometido pela aids, para Marília Gabriela em 1988), assim como sabia muito bem o que e quem o rodeava. Pode até ter querido  de muitos sentimentos, mas sempre soube muito bem o que sentiu e, se não o soubesse, não teria traduzido tudo que colocou em suas músicas. Saber o que se sente, querendo ou não, também é para os mais intensos.

As vezes parece que pessoas que se excedem ou não se conhecem ou não querem se conhecer. Ao lado dos excessos há as pessoas que, por os cometerem, estão no centro deles (e de seu mal) e aquelas que estão ao redor dos limites ultrapassados. Nenhuma posição é sã e salva perante o excesso, nem a do centro nem a da tangência; no centro a pessoa não ouve a si mesma, não ouve a ninguém e muito menos sabe dialogar com seus sentimentos sem ser engolido por eles. Muitas são as fontes que expõem as diferentes tentativas dos íntimos de conter os excessos de Cazuza, logo, tentativas de se protegerem também. Uma discoteca de canções, por outro lado, documenta como ele só conseguia lidar com tudo que sentia, com seus excessos, através de sua voz e poesia. 

Ainda sou das humildes impressão e opinião que esse cara que disse junto a Rita Lee “eu tava aqui pensando, no ano 2020 eu vou ter o que? Vai ser tudo igual”, esse cara que colocou, de fato, a mão no fogo, se conhecia muito bem. Sabia o que era e sabia ao seu mundo. Se comunicava muito bem consigo e devia ser dos únicos que sabia o que estava por trás de tantas posturas que até podiam ser fugas; como qualquer ariano, mesmo que depois do fato, era consciente de seus feitos. Sabia que fazia parte da burguesia que criticava, se sabia e era burguês. Era consciente também de todas as mentiras que este grupo, que até hoje se crê dono de empregadas e as esconde até hoje nos fundos, falava. Se tantas mentiras das pessoas sobre si próprias, sobre suas personalidades, sobre suas sexualidades, o desesperavam a ponto de "Só se for a dois" ter se transformado no anúncio de laços rompidos, com "as possibilidades de felicidade são egoístas meu amor", não posso afirmar. Só sei que, com ou sem drogas, fechar os olhos para si e para o próprio redor pode ser fatal. Cazuza não fechou os olhos para si, não traiu seu romantismo perante a vida, seu exagero de pular e gritar nos palcos, mas não sobreviveu a isso. O desafio é se permitir ser romântico e se permitir, ao mesmo tempo, permanecer vivo. Espero que, nesse ano, tenhamos coragem para tal. 


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