E eu, não amo também? Com vocês, Marília Mendonça
Primeiro eu
quero dizer que palavra é uma coisa que não se retira, principalmente a dita
publicamente, e que não entendo como a pessoa responsável pelo descalabro
emitido a respeito da cantora Marília Mendonça não teve caçado, pelos órgãos
devidos, seu direito de exercer a profissão. Se souberem de uma novidade, façam meu dia!
Te convido a ler uma reflexão sobre algumas coisas que a
partida absurdamente precoce de Marília Mendonça despertou em mim, que escrevo,
e a não dar mais audiência para quem desrespeita, ao discriminar o corpo
alheio, o espaço que tem para emitir palavras. Marília levantou em mim aquela
conhecida e angustiante constatação de que determinadas pessoas só recebem
reconhecimento de sua grandeza quando deixam de existir, e também a seguinte
indagação: como serão tratadas, como vamos tratar as mulheres que falam de amor
em suas músicas? Começo falando de amor, então. Afinal, não tem como falar de
Marília e não falar, do romântico ao Cristão, de amor.
As vezes me deparo com esse apontamento, vindo de diversas
fontes em meio ao mar de posicionamentos que são as redes sociais, sobre como o
amor romântico é supervalorizado, como a princípio somos condicionados a nos
importar mais com este do que com outros tipos. Por mais que não deixe de ser
verdade, não acho um ponto de vista muito justo. Principalmente quando se trata
deste comportamento sendo associado a mulheres. Afinal, até pouco tempo atrás
eram normalizadas falas machistas, falocêntricas com “é o homem que tem que vir
atrás de você, e não o contrário!”, e agora mesmo presenciamos em diversos
perfis de psicologia voltados para relacionamentos amorosos uma também
supervalorização, ainda que as vezes contextualizada, de posturas “misteriosas”
e reticentes de mulheres no flerte romântico. O problema é que no meio desta cultura e lógicas,
muitas vezes doentes, nós mulheres apenas queremos receber amor, e somos condicionadas a querer receber de
homens. De homens que são exaltados de diversas maneiras só por serem homens e
só por serem brancos (não podemos negar isso tão pouco)
É claro que não queremos receber amor romântico apenas por
sermos mais sujeitas, a cada novela com o príncipe salvador e caçador, a cada
comercial de TV em que um homem, via de regra com traços europeus, é passado
como fonte de afeto e referencial de beleza, do que outrem a esta vontade. Mas
o que acontece quando não recebemos esse amor que, além do quão gostoso de fato
é, somos criadas para querer receber? Não podemos nem liberar em canções este
sentimento que quisemos receber e também dar?
O que acontece quando você é uma mulher, mulher gorda, não branca, não cis,
e mal pode nem chorar cantando, cantar chorando, mas ainda assim cantar?
Marília, por mais que eu também tenha reproduzido este problema
humano de algo ou alguém precisar desaparecer para ser percebido, também era
sobre isso. Era a incorporação de uma postura que eu, pra minha sorte, entendi
pela primeira vez aos treze anos ao escutar outra voz feminina: assim como Joni
Mitchell, Marília era uma mulher que cantava sobre as suas sensações, entre
elas o seu amor. Na alegria e na tristeza dele. E não estamos acostumad@s com mulheres
chorando alto, reclamando alto, sofrendo alto. Principalmente quando a fonte do
problema é a falta de amor. Principalmente quando essa falta é cantada em um
tipo de canção que por muito tempo fora aceito (e as vezes ainda o é) apenas
entre homens. E aparecer, construir um produto belo a partir das faltas que a
gente sente é uma coragem que ainda vamos demorar muito para aprender a
celebrar a altura. É uma coragem que só quem levou muitos “nãos”, muito além
dos nãos românticos, na cara, sabe ter.
A outra cantora mencionada anteriormente falava assim “Você
está no meu sangue como vinho sagrado, você tem um gosto tão amargo e tão doce”.
Já Marília, disse “[O nosso amor] Envelheceu, perdeu os movimentos/ Agora cê já
ta sabendo que a gente precisa de ajuda pra atravessar a rua”. Notem o quão
fortes, assertivas, são palavras como essas. Inteligentes, precisas. E notem
também como em todos os estilos de música temos homens exaltando suas mulheres, ou amando ou
chorando por elas. Chico Buarque falando, de fato, coisas lindas de Marieta. Caetano
chorando por Sônia Braga (quando, diga-se de passagem, uma só noite é narrada
sobre uma mulher como Zezé). Silvio Rodriguez parece que só consegue se
apaixonar por uma mulher que vai embora! Pois ser livre, independente e, ao
mesmo tempo, se deixar ser amada, não parece uma postura tão interessante.
Não seja pequen@ e
não pense que estou repreendendo homens fazendo músicas para mulheres! Estou reparando
fatos que posso constatar enquanto alguém que muito, mas muito consumiu e
consome música. Reparo que letras de amor romântico criadas e cantadas por
mulheres, reparo que este espaço da mulher para falar com tristeza ou com
felicidade deste tipo de amor, são tão raros em literalmente todos os segmentos
musicais, que mulheres como Marília Mendonça se destacaram por motivos além da
personalidade e da coragem dela. Ela se destacou, inclusive, por ser uma das
poucas que o fez. E por que será? Será que por trás disso não há ainda ambientes
de expressão que priorizam a voz de homens e, anterior ao contexto artístico,
uma cultura que ainda normaliza essa ideia de que, sendo o homem o único que
pode ir até alguém que o interessa, também é o único que pode ou ser feliz ou sofrer por
isso, na arte? Quantos homens no sertanejo, no samba, na mpb, no Blues você vê
falando de seus sentimentos e seus casos de sucesso ou frustrados no amor (de
forma que nesse machismo, por mais que homens não sejam tão pouco tão
estimulados a sentir qualquer coisa, parece que até esse direito tem mais do
que mulheres quando se tratam* de relacionamentos afetivos!)? E quantas
mulheres? Graças a Deus Marília foi sim muito escutada, os números revelam. Eu,
enquanto mulher, fico muito feliz de na prática ela ter vencido essa solidão que
é a falta de incentivo a mulheres cantando, quanto mais cantando sobre amor.
Me parece realmente importante refletirmos sobre isso não
para brigarmos cegamente mas para ponderarmos quais comportamentos ainda
legitimamos e quem é calado no meio disso. Eu, de qualquer forma, falando de
vozes caladas, só fui parar para notar a dimensão dessa menina, dessa mulher, e
menina de novo, só fui parar para associar as músicas que achava interessantes
em diversos rádios mas que nunca associava à Marília Mendonça, depois do
imprevisível ter vencido. Fico muito triste, por um lado, mas também acredito
que sempre podemos fazer algo com o que aprendemos de acordo com o quanto
algumas pessoas e suas lições tem um poder avassalador de ensinar. Além de eu
aprender com sua voz e com suas letras desde que não sabia que ela era ela, seria muito injusto, de fato, se eu encerrasse
a minha impressão sobre Marília à uma mulher que rasgou a cortina apenas da “música
de fossa”. Determinados grupos, determinadas mulheres entre eles, sabem muito
bem que os nãos nas relações afetivas são apenas um dos que essa construção
social que temos para hoje pode dar. A moça falou até disso.
Marília não só falou de mulheres que não recebem o devido
amor, não só falou de mulheres que tem que sofrer caladas sobre isso, mas falou
de várias outras faltas de amor; aquele bem como o que Jesus ensinou. O amor de
amar o próximo como a ti mesmo. O amor de não atirar a primeira pedra. Marília
nitidamente acolheu em suas letras, e as amou ao fazer isso, à mulheres em
situação de prostituição (aquela prostituição nociva, doente, à qual uma mulher
recorre para comer ou dar de comer). Às mulheres mais vulneráveis e mais mal
tratadas da sociedade. Às mulheres que, em todos os sentidos, mais sofrem e
mais são levadas a pensar que não merecem nenhum sim (o sim do amor, da
educação, da vida profissional, da saúde digna e de qualidade). Nesse caso não
dói tanto rimar dor com amor quando alguém foi capaz de traduzir a ambos muito
bem: foram suas as palavras de que “Cada um que passou levou um pouco da sua
vida/ E o resto que sobrou ela vende na esquina” mas também foram suas estas : “Mas
se soubesse um terço da história me abraçava e não me apedrejava”.
Para te amar, Marília, e para terminar de falar de você,
celebro uma vida viva, da sua amiga Ludmilla que depois de cantar uma música
falou assim: “Cadê as mulheres aqui?”. Para mulheres estarem presentes precisam
falar, precisam ser expressar, precisam poder sentir alto. Precisam poder ser felizes e tristes, alto! Se uma
pessoa não pode expressar o que sente não pode ser quem realmente é. E mundo vai ter que engolir nós mulheres como
somos e como queremos ser. Vai ter que engolir que não podem mais nos dizer
através de padrões físicos e comportamentais, como ser mulher. Vai ter que
engolir que parte de ser mulher também é escrever músicas de fossa.
.jpg)

Comentários
Postar um comentário