Bandeira do Brasil, ninguém te manchará ou O homem que amou o Brasil (MUITOS GATILHOS!)
Pra mamãe,
que amou o Brasil o suficiente pra não deixar manchar a bandeira
"Mas se ergues da justiça a clava forte". "Não temes quem te adora a própria morte". "Vai pedir bença pro tio". Entre frases do hino e e de roteiro, sim, acabei de assistir o filme sobre Carlos Mariguella, dirigido
por Wagner Moura e contado por Seu Jorge através de sua encarnação do
revolucionário. Pretendo contar como os acontecimentos dos dias e das horas
anteriores me prepararam para o que eu teria de ver. Talvez eu possa afirmar
que comecei a me deparar a partir do dia do assassinato de Mariguella tudo o
que o filme mostraria, incisiva e duramente, quatro dias depois. Posso afirmar
que apenas no dia 4 de Novembro de 2021 começaria a conceber, em plena calçada em que fora executado, o que este ser humano representou, e o
faria apenas por ouvir pessoas como ele, em todos os sentidos, contando dele.
Como qualquer experiência densa, não sabia o tamanho do que
digeria enquanto no momento em que vivia. Pois o que digeria eram homens pretos
falando de um outro homem preto que não só por muito tempo fora apagado
enquanto tal mas em torno do qual só apareciam homens brancos falando de sua
memória. O que digeria era homens pretos lembrando que, no fim, ao lutar por
igualdade sócio econômica Mariguella, na verdade, lutava por igualdade racial,
por motivos que sabemos muito bem. Quem sobressaiu ao reforçar tanto as feridas
que o herói nomeou quanto a infeliz coincidência que permanece foi o ativista e
entregador de aplicativos Paulo Gallo, que falou do suposto passado ao qual
Mariguella pertenceu mencionar a precarização do trabalho de hoje em dia.
Quando escutamos este ativista, sem hesitar, descrevendo a empresa IFood como “uma
máquina de moer preto”, não precisamos nos perguntar quem está por trás desta
anulação, não é mesmo?
Gallo, justamente, foi este pra quem se rebelar contra o
Ifood e levantar uma manifestação de seus colegas de trabalho foi só o começo. Ele
também, meses antes de estar no microfone na Alameda Casa Branca, foi lá na
Avenida Santo Amaro dizer que não aceitava um assassino de índio e preto ser
exaltado na sua cara e na cara de seu trabalho como um símbolo universal para a
nacionalidade brasileira. Não aceitava ser pisado duas vezes, pelo Ifood e pelo
imaginário racista, tão racista quanto qualquer apartheid declarado,
brasileiro. Que bom que Gallo quase chorou ao dizer “tá doendo!” sobre passar
por tudo que a estátua que queimou materializa, materializa infelizmente, pois
ainda está lá. Em uma ação articulada e calculada com o grupo “Revolução
Periférica”, Gallo e ativistas como ele, assim como a inquisição fazia nos
países ibéricos e na colônia feita Brasil, reuniram materiais inflamáveis em
torno da estátua (a qual, reparem, fica isolada em uma praça que mal tem adesão
do público) de modo a concentrar nela o fogo que seria ateado. Um gesto
simbólico que, provavelmente pré-programado e sem dúvida direcionado, como toda ação organizada carregava uma mensagem
auto-explicativa e até didática. Atear fogo chega a ser um gesto didático
diante da burrice, perversidade, de erguer monumentos para assassinos. Afinal, o
Brasil não é quem veio para ele de livre espontânea vontade, o Brasil é quem
estava nele antes do nome e quem foi sequestrado para ele depois do nome. Ou para
você Brasil é quem matou o país?
Aproveito para perguntar por ter escutado muito bem os
comentários enquanto, como faço em qualquer manifestação, andava ao longo da
reunião pelas bordas da calçada para ouvir os comentários tanto das vizinhança
fofoqueira de fora quanto de quem agia dentro. Não bastasse atitudes como a de Gallo
terem causado medo à quem, objetivamente falando, O FOGO NÃO ALCANÇOU e tão
pouco foi dirigido, como a própria reunião do dia 4, que passava poucos metros
do meio fio, estava sendo taxada de vagabundagem. “Poxa, já tá na hora de
desfazer né” era o naipe de reclamações que a polícia escutava. “Vagabundos!” o
carro que teve de esperar menos de 5 minutos para atravessar, gritou. “Cada um
tem sua opinião né, mas não é tanta gente pra estarem parando a rua tanto
tempo!”. 5 minutos perdidos no trajeto para o trabalho é dinheiro e muito pouco
pode assustar muito e despertar uma raiva sem precedentes pelo visto. Já ficava
muito evidente qual tipo de ódio assusta as pessoas. O que assusta é o ódio de
Paulo Gallo à uma memória assassina, e não o ódio de um motorista ao chamar a
memória que, ao contrário, lutou contra assassinos e estupradores
INSTITUCIONAIS, de vagabunda. Afinal, brasileiros que se dizem mestiçados não
se assustam com a pobreza e morte de pretos e o estupro de mulheres e lgbts.
Não só escolhi naquela manhã de quinta feira estar no
acontecimento como moro na Alameda Casa Branca. E como qualquer pessoa
privilegiada, uma das situações mais explícitas em que a água bate na bunda e a cobrança do privilégio chega são as
possibilidades de assalto, não é mesmo? Uma das manifestações deste privilégio é
quando esquecemos dele e não somos ligeiros, como não fui no domingo seguinte ao visitar minha
avó materna na divisa com Diadema. Tive a ideia de colocar o celular no soutien
mas não a de voltar de ônibus mais cedo, ainda mais vestindo salto, colar e
roupinhas de brechó. A água bateu nessa bunda inocente quando pensei que seria assaltada por um grupo de
meninos magros, pretos, de boné e chinelo que corriam rapidamente na Avenida Cupecê. Eu tive medo
de crianças que não podem ser crianças assim como já tive medo de crianças e
homens pretos em outras situações e bairros. E no fundo a pior parte desse medo
é saber que a culpa dele é sua. O que assusta é ver o tamanho da miséria por
trás de quem tá sendo mais ligeiro que você e o quanto você é responsável por
essa miséria. Responsável por causa da sua cor. Da sua classe social. Por toda
essa natureza tão bem construída. O que assusta é ser cobrado. E quando você
sai da situação, o medo passa rapidinho e você volta pra onde, se continuar lerdo
e fora do papo reto, dificilmente vai sair porque é difícil (ainda que não
impossível) de te tirar (e de você sair por iniciativa própria mais ainda).
Eu fiquei realmente muito triste de ter medo de meninos pretos. Me
senti uma merda tendo medo de meninos. E tão pouco foi legal ter medo. Afinal, mesmo
que em cima de raízes covardes, não é legal ter medo de ser assaltado,
principalmente pra quem corre riscos redobrados de tal e, ao contrário de quem
tira foto no meio do carnaval de rua do centro de São Paulo, não pode parcelar
OUTRO celular de 1000 reais em dez vezes. Mas esse medo, falado por Gallo na
quinta feira e por Seu Jorge no cinema, de assassinatos arquitetados por quem
tem poder político e econômico, meu irmão... Justamente. Justamente, tem gente que consegue ainda que consegue ter mais medo de assalto e de um homem queimando um pedaço de concreto do que de polícia sentando na jugular de uma mulher e política de extermínio. Foi sentar no cinema
umas horas depois que esse medo me foi explicado direitinho. Que foi explicado
que o assassinato planejado é infinitamente maior em ódio e perversidade do que a primeira bala que mata de uma vez; dura infinitamente mais. Pena que eu precisei
ver Mariguella pra entender de verdade, engolir de vez, aquilo que Paulo e seus
parceiros falavam: sobre quem que o estado escolhe pra matar em morte lenta,
morte que pode começar em cima da bicicleta e da moto sob o nome de start ups
modernas.
Talvez eu precisasse ver mesmo pra saber do que eu e os meus
fazemos parte. Os pretos e índios que foram retratados na morte multiplicada
por dez que é a tortura, que é ver o pai e a mãe sendo presos, aí eu já não sei
se precisavam reviver isso. A gente sabe com detalhes como Sonia e Stuart Angel
Jones foram torturados. Sabemos como Helenira preta, que jogava basquete e lia
partes da bíblia com seus familiares comunistas, também foi? A ponto de nem
cogitarmos reproduzir estas cenas? Fica para quem quiser pensar. Eu poderia
falar mais da história a partir do bordão de Mariguella e dos seus de hoje em
dia: “eu não tenho tempo para ter medo”. Fica muito nítida como essa frase, e
postura do guerrilheiro em relação à ela, orientaram a narrativa. Eu, que
escrevo, daqui da minha pele clara sei muito bem o quanto não tenho como saber
o que é ter medo e não gosto muito de falar sobre coisas que não sei e não sinto,
e também porque não acho saudável ter um grupo escolhido de pessoas cujo
projeto é abafar seus sentimentos, a começar por seus medos. Mas pessoalmente sei
um pouco, mais pela minha personalidade do que pela melanina da minha
ancestralidade, o que é ter raiva, a ponto de reconhece-la também como uma
escolha para contar essa história. E ao contrário do que muitos pensam, por
trás da raiva pode haver muito, mas muito amor.
Mariguella, de Wagner Moura e seu Jorge, escancarou a raiva que este homem sentia ao ver a si e aos seus tratados como eram. Escancarou como essa raiva existia justamente pelo amor que, feito Jesus, sentia pelo próximo como por ele mesmo. Mariguella se sabia preto, se amava preto. Sabia o povo brasileiro preto e os amava assim. Pois só amando muito pra ter uma raiva proporcional e disparadora de transformações estruturais que até hoje não encontram coragem para se amparar. Cada momento do filme em que o protagonista age focado a ponto de coordenar todos em volta dele para o mesmo e árduo objetivo explicita que a figura histórica já tinha atingido a recusa de uma mãe ou pai vendo alguém ferir seus filhos. É muito importante frisar, também, como o amor é expropriado de histórias pretas. Como nelas, por mais que a raiva não possa ser dissociada destas histórias e tenha gerado transformações poderosas nelas, ela e a dor são as únicas que são escolhidas como eixos narrativos. Este homem, filho de sua mãe e de seu pai, é a ilustração de como amor e raiva são inseparáveis como o bem e o mal? É. Mas também, como fora retratado e como eu posso garantir que ouvi da boca de sua ex companheira, também era a ilustração da doçura, doçura que não só foi defendida por Mariguella pegando seu filho no colo e pelo afeto com seus amigos, como fora sustentada e restaurada por uma pessoa ainda mais doce: a imensa voz, compositor e ator Seu Jorge. Fora isso, se um filme em que homens se abraçam e se beijam apenas enquanto amigos já é um abalo, imaginemos um filme em que um homem preto experimenta todas as possibilidades de delicadeza, assim como diz Viviane Pistache em "Moonlight ou como um menino negro navega o mar" para a revista Forum ao declarar "(...) Moonlight é a possibilidade de sairmos do clichê do homem preto, heteronormativo falocêntrico (...)" . Mariguella também o é.
Mariguella, Marielle... parece que não só não tiveram a
opção de ter medo como não tiveram a opção de não amar e, portanto, não ter
raiva. Perto deles, elegeram, elegemos caras não brancas para destruirmos,
fazer o que. Eles foram lá dizer que não dava, que não dá, pra raças que não
possuem nariz fininho, cabelo liso e pele branca permanecerem sendo alvos desse
assassinato orquestrado. Eu não vou dizer qual foi o fim disso pois prefiro
lembrar de gente assassinada viva e sentindo. Para isso, não tenho problema
algum de dizer que o filme termina com, ao contrário do conceito de patriotismo
que somos ensinados nas nossas escolas ricas e brancas, a mãe de Carlinhos
Mariguella gritando: “ESSE HOMEM AMOU O BRASIL”. Mariguella e os seus amaram (e
alguns, graças a Deus, ainda amam) o Brasil. E aqui o amor, como diz a balada
de Gisberta em que “não se ouve o grito nas trevas” e “o fim vem buscar”, é tão
longe. Tão, tão longe. Mas, ao mesmo tempo, tem uma bandeira cuja música diz
assim: “onde a liberdade é mais uma estrela a brilhar”.
.jpg)

Comentários
Postar um comentário