A sinceridade é um presente?
O fim do ano me trouxe a minha relação com a honestidade e a forma como eu lido com ela nos meus vínculos, então reflito em voz alta. Esse momento, despertando essa sensação por vezes instrospectiva de conclusão e distanciamento diante dos acontecimentos, de alguma maneira faz com que nos confrontemos com a nossa maneira de agir nos relacionamentos com as pessoas à nossa volta, desde as mais íntimas até aquelas um pouco mais distantes (isso sem considerar como os contatos foram ampliados com as redes sociais e como foram ressignificados por elas). Uma das principais variáveis dos nossos relacionamentos é a honestidade. Ainda que a demanda dela seja diretamente proporcional à proximidade que você tem com alguém, mesmo no contato mais superficial, em algum momento, essa necessidade vai aparecer.
Acontece que a condição para sermos honestos com os outros, tanto no sentido de sermos nós mesmos, quanto no sentido de expormos opiniões relevantes para a manutenção de uma relação (o que muitas vezes significa liberar uma opinião sobre o outro), é a honestidade consigo mesmo. Esse tipo de verdade é a mais difícil de ser dita interna e externamente pois ela muitas vezes implica a autocrítica e, de qualquer forma, mesmo na falta dessa necessidade, assim como "mentir para si mesmo é sempre a pior mentira" a verdade para si mesmo é a mais difícil de ser dita. As condições para que essa verdade seja alcançada, com risos eu deixo para o ano que vem...
Eu tento escrever com um certo distanciamento mas eu tanto sei que esses são os meus maiores desafios que eu escrevo sobre essa história com um nó na barriga. Em um filme da Drew Barrimore que eu adoro, em que ela faz uma jornalista, ela descreve como é mais fácil para ela escrever sobre o que é lhe é comum. Logo, a reflexão sobre honestidade nas minhas relações e nas relações pessoais como um todo sempre me atravessou, e mesmo com o nó na barriga é comum pra mim falar sobre ela e é gostoso escrever sobre algo tão meu. Talvez essas diferentes direções da verdade tenham uma relação de dependência, sim; talvez para conseguirmos olhar o outro, não exatamente com imparcialidade (quando somos pessoas), mas sem estarmos completamente assumidos por essa vontade humana de sobressaírmos, a gente tenha que antes ser capaz de encarar a nós mesmos um pouco emancipados do nosso inseparável, intransferível (por mais que todo mundo tenha) e indissociável amigo ego.
Expor para a outra pessoa, ainda assim, o que realmente pensamos sobre ela e sobre aspectos da nossa relação com ela, principalmente quando o conteúdo é negativo sempre vai ser um desafio e sempre vai levantar a ponderação: Será que eu falo? Será que vale a pena? E demandará coragem mesmo quando o que estiver em questão for algo que realmente diga respeito à ela, e não à você e a sua vontade de prevalecer desviando defeitos para os outros.
No meu caso, acontecimentos específicos dos últimos anos, como a perda (que eu considero) trágica da minha mãe, despertaram e reforçaram esse imperativo de pelo menos tentar conquistar mais franqueza dentro dos meus diversos contatos. 2020, contudo, acentuou ainda mais essa demanda, principalmente nas relações mais íntimas; não posso afirmar que tive tanto sucesso. Diante dela eu comecei a refletir sobre o que dificulta sermos honest@s nas nossas relações e me deparei com muitas possibilidades. Primeiro que ser honest@ é se expor com o desafio de ter a coragem de colocar o que você pensa sem que isso signifique anular o outro, alvos muito difíceis de se conciliar em um só discurso. Também uma fala da Joice Berth em uma de suas publicações que me marcou muito, em que ela condiciona a concessão da honestidade ao seu pedido. E agora, algo que sempre pensei: retomando aquela ideia de honestidade muitas vezes prescindir de intimidade, nem sempre vai valer a pena expor o que você realmente pensa, dependendo do assunto e dependendo do quão sensível ele é, se essa pessoa não for presente na sua vida.
Vale a pena se expor, quando dividir pontos de vista delicados é se posicionar, para uma pessoa que não vai permanecer de uma forma considerável? Aceitar que não vale a pena dividir sua sinceridade com uma pessoa é aceitar que ela não vai ser retida, justamente, que vocês não vão alcançar uma intimidade. E em um contexto que permite contato com o máximo de pessoas é uma espécie de luto aceitar que não vamos manter todos os afetos possíveis; mesmo assim, continua importante pelo menos tentarmos ser seletivos.
Eu tenho milhares de pontos de vista complicados a respeito de muitas pessoas da minha vida, das mais próximas às mais distantes, alguns deles dizem mais respeito à mim e à minha forma de ser do que à pessoa, outros não, e eles muitas vezes não apareceram na presença delas por vários motivos. Se eles vão aparecer eu não posso afirmar, o que posso fazer é continuar compartilhando o que penso e pensando alto sem a menor pretensão de estar dizendo a verdade predominante.. A minha impressão é que por mais que não valha a pena nutrirmos, incentivarmos, pensamentos negativos sobre as pessoas, tanto conhecidas quanto estranhas, esses pensamentos vão existir pois ser humano é discordar, é se desencontrar, é ter atrito, e parte de pensarmos a honestidade consigo e com o outro me parece ser aceitarmos que nosso sentimento pelas pessoas das nossas vidas não é um só. Essa contradição de sentimentos e opiniões sobre o outro que atravessam as nossas relações, ainda assim, vão no mínimo suscitar o, remeter ao dilema da honestidade.
Este dilema, realmente, não tem uma resolução óbvia e muito menos única. O que não parece tão completo é que, ao vislumbrarmos relações saudáveis com as pessoas e formas idealizadas de elevação pessoal, sensações negativas sobre nossos vínculos sejam completamente caladas quando elas fazem parte de qualquer contato e de qualquer tipo de personalidade; mesmo dos contatos mais pacíficos, mesmo das personalidades menos inflamáveis. De maneira nenhuma incentivo que chamemos para a praia essas sensações que, notoriamente, fazem mal para nós antes de tudo. Só lembro que, para podermos fazer algo com elas, temos de ter, justamente, a tal da honestidade com nós mesmos para olhar quando elas estão ali.
Uma relação honesta é mais completa? A princípio sim... Afinal, ser honesto é se doar um pouco quando conceder uma verdade, no sentido de ajudar uma pessoa a se desenvolver, significa dominar aquele instinto que diz que você precisa que o outro tenha um defeito para você ter uma qualidade; que só tem espaço para uma pessoa legal nos círculos. A generosidade de crer que o outro não se resume àquela característica questionável, no fim, está lado a lado com a generosidade de dividir espaço com um brilho que não seja o seu. Algumas situações vão exigir esse salto interno através da capacidade de falarmos a verdade. Em algumas situações isso vai valer muito a pena. Outras não, na medida em que alguns vínculos tão pouco vão valer e que não temos que ter todos os vínculos possíveis para saber amar. Eu não comecei uma reflexão sobre como é difícil sermos honestos nos nossos variados graus de relações para chegar à uma resposta sobre esse problema, quando esta é tão pessoal e a minha eu não tenho.
O que eu posso dizer é que o desafio da honestidade assusta pois os meios de se empenhá-la são muito difíceis, tanto, que também são muito pessoais. Não poder compartilhar certas impressões e incômodos com uma pessoa acende sim o receio de uma relação podada, limitada, mas talvez o primeiro passo para essa honestidade seja justamente identificar qual delas está sendo pedida: aquela tão estrangeira e indigesta de olharmos para o que é desconfortável em nós, ou aquela referente à outra pessoa. Seja qual a sua orientação, a honestidade sempre será um exercício de coragem e generosidade, e o caminho para a sua assimilação sempre será singular. Da mesma forma ser de forma inteira, se relacionar de forma inteira, sempre vai chamar a conciliação de sentimentos, a princípio, inconciliáveis. Existimos com o oposto; e temos muitos opostos dentro de nós.
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