"E eu, não sou uma mulher?"
Séries são como diários. elas tem o poder de nos acompanhar nos momentos mais íntimos e quando mais nos sentimos sós e incompreendidos. Se diários eram ferramentas de expressão para mulheres em momentos em que o machismo era ainda mais institucionalizado, as séries com protagonismo feminino, feitas por mulheres além de atuadas, são com certeza uma maneira de mulheres revelarem seus interiores e serem escutas. Mas mulheres, no geral? De qual mulheres eu falo quando as diferenças internas entre elas são reais? Quais mulheres são essas que escreviam diários no século XIX e assistem séries no segundo milênio? Mulheres brancas de origem européia aparecem em terem o feito e a possibilidade de uma mulher, cuja vida era reduzida a homens, escrever para si mesma era de fato importante. Ainda assim, mulheres brancas foram feridas apenas a partir de seu gênero enquanto mulheres negras foram feridas em sua raça e tiveram sua humanidade roubada sob pretexto desta. E para vermos o tamanho de seu salto, através de Angela Davis sabemos que, para mulheres negras (e homens negros, na época, seus companheiros de luta) no século XVIII, XIX e XX a palavra, a alfabetização eram recursos de liberdade e transgressão.
Hoje, diante de diversos canais difusores proliferam as séries com vozes femininas e estas são como os mencionados diários enquanto espaços em que mulheres falam de si mesmas, seus segredos e como se sentem nas diversas áreas de suas vidas. Ocorre que, assim como não eram apenas mulheres brancas que podiam acessar sua subjetividade através da palavra e mulheres negras através dela resgatavam uma subjetividade e humanidade anuladas pelo entorno, não são apenas mulheres brancas que tem segredos a contar. Vale lembrar que a interseccionalidade das lutas está aqui para questionar a universalidade da mulher branca, magra e cis e para dizer que ela não pode representar diferentes condições as quais a sua raça e (muitas vezes consequentemente) sua classe impediram que ela vivenciasse. Não podendo ser representadas por mulheres brancas, mulheres não brancas estão no audiovisual para dizer que tanto dentro de seus respectivos contextos quanto dentro da sociedade inteira também são mulheres. Também amam, também tem família, também tem desejos e sonhos; também tem individualidades.
Estão aqui pois, como pode, na profusão de séries americanas e europeias que abordam ou grupos de amigas ou mulheres isoladas apenas a paleta branca ser representada? Desde Sex and the City a ideia de mulheres independentes se apoiando em grupos é muito interessante; mas quem eram essas mulheres e como eram é a pergunta que emergiu junto e que incomodou- ainda ressoa o incômodo. Até o momento em que, a partir de 2015/2016, a primavera feminista do mundo é questionada por certos nomes através da mesma televisão que ainda representaria muitas séries unicamente brancas. A questão não é simplesmente a presença de personagens femininos esféricos em séries; a questão é a ascensão de tramas que além de contextualizarem mulheres, colocam a sua união na qual elas se bastam através de suas singularidades reunidas. O objetivo não é mais a realização da mulher através do amor romântico, mas sim através dos laços com suas amizades e a palavra "sororidade" passa a ser gasta. Qual a cor desse afeto? Qual a cor dessa mulher que se emancipou do ideal de amor romântico, diga-se de passagem, imposto mais a mulheres que por uma estrutura racista são mais privadas de realizá-lo? O problema de quem e como são essas mulheres que abordam suas singularidades no audiovisual persistia.
Foda! é a expressão para a mulher dona de si, na pós modernidade representada, ter uma só cor e um só corpo os quais, no mínimo, garantiam a ela um determinado tratamento nos relacionamentos amorosos da ficção, quando não é novidade que o desejo de ser amad@ é da natureza humana. E foda! é a expressão também para mulheres como Issa Rae, Michaela Coel, e lááá atrás Rachel True (uma das protagonistas do filme "Jovens Bruxas"), que literalmente encarnaram, nos projetos que ou protagonizaram ou elaboraram, a tão eloquente frase de Sojournier Truth, uma das primeiras mulheres negras feministas, "E EU, NÃO SOU UMA MULHER?" ao projetarem na tela mulheres ainda mais donas do "infinito particular" de Marisa Monte. Disseram que, a partir de sua raça (silenciada) também eram mulheres, também eram pessoas que tinham ainda mais pra contar na ótica particular e romântica da mulher independente e fortalecida por suas amizades. Em "Insecure", Issa tem o mesmo nome da sua criadora e lida com suas inseguranças e cansaços através da palavra em raps cômicos ou em monólogos inflamados diante do espelho. Talvez seja tanta elaboração de suas entranhas o que a faça tão sincera, sendo a sinceridade da protagonista consigo e com seu redor a grande marca da personagem e da história.
Que bom. Que bom que aquelas séries que todo mundo gosta, sem histórias específicas, que simplesmente retratam o cotidiano de jovens adultes ganham mais cores, mais pessoas. Apesar de não ter lido me recordo do livro de um geógrafo e homem negro, Milton Santos, "O Espaço Dividido", para dizer que é da natureza humana que dividir as coisas, dividir o espaço, dividir a atenção, seja um desafio. Mas também é da natureza humana existir em coletivo. Se não fosse para aprendermos a legitimar a necessidade de alguém que não é a gente como legitimamos a nossa não estaríamos juntos. E se reconhecer, se ver, também é uma necessidade humana e para isso existem as histórias, antes contadas em figuras rupestres, depois na oralidade, depois em páginas, depois em uma tela colorida. Na língua e na imagem a televisão lembra aos seus espectadores que eles não estão sós na sua existência. E se esse direito sagrado (a ponto de fazermos Deus à nossa imagem e semelhança) de se reconhecer tem um recorte muito claro, as mulheres - e homens- negres, indies, árabes, asiátiques, vão escrever e atuar histórias "que feito faca" vão cortar nossa carne mais que Belchior.
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