Apresentação dessa cor

 Testemunhamos cada vez mais o debate sobre raça e, nele, brancos sendo convocados a refletir sobre a sua. Se reconhecer como parte de uma raçaSe reconhecer como parte de uma Testemumhamos cada vez mais, no debate sobre raça, brancos sendo convocados a se reconhecerem como raça. Se reconhecer como parte de uma raça, seja qual for, implica em muita responsabilidade pois pertencer à uma raça significa pertencer a um grupo que partilha de características comuns e uma história comum; a raça presentifica o peso do coletivo. A mencionada história sempre nos cobra e sempre está presente, seja a de um só indivíduo ou a de um coletivo. Justamente nessa constante cobrança que a história nos faz ela nos lembra que a individual está inevitavelmente vinculada à do grupo a que pertencemos por sermos existências simultâneas. O recorte racial ultimamente é o que mais pesa na distinção destes grupos, nos lembrando não só que existem pessoas unidas pela cor e assim reunidas, mas que essas pessoas reunidas estão inseridas em uma sociedade que também existe em grupo com elas. Sendo assim, ultimamente é o recorte racial o que mais pesa na união e na cisão. 


Eu sou filha de uma relação interracial e nada tira nenhum dos lados que me compõem de mim. Nada me tira o contexto da minha mãe negra muito menos o do meu pai branco. Ser resultado da relação de raças opostas em uma construção que dá predileção a uma delas é transitar entre sensações que nunca vão te abandonar e fatos que, assim como a história, nunca vão deixar de te cobrar a citada responsabilidade. No meu caso (Assim como no de outros) é responsabilidade que eu tenho com a minha mãe, nossos ancestrais e seus irmãos de cor por, na pratica (a que desnuda mais que a palavra) ser parte de um grupo que mantém os dedos levantados no teste de "abaixe um dedo se você já sofreu isso". A minha mãe foi a melhor mãe do mundo, uma mulher maravilhosa e admirada por muitos; ela não foi o racismo que passou. Mas ainda assim foi uma consumidora desrespeitada. Mesmo vestida de advogada, confundida com uma empregada. Vista como metida diante da ascensão social que conquistou, quando negros não podem subir, Não podem querer o melhor, Não podem ter ambição (um dos maiores tesouros que minha mãe me deixou). Constrangida, inclusive por funcionários negros como ela, enquanto estampava status sócio-economico.

Grande parte de mim e da minha pele são parte do grupo que fez isso com minha mãe e, enquanto desse grupo, nunca me foi endereçado esse tratamento que determina quem vai e quem não vai passar por isso. Eu sou parte dele mas não é só ele que faz parte de mim quando, assim como a raça branca do meu pai está em mim, a raça negra da minha mãe também está em mim. E fazendo parte de mim eu procuro encontrar o meu lugar entre elas e em relação a elas para entender quem sou e para saber a partir de que lugar agir para fazer a minha parte nessa luta declarada que estamos vivendo e cujo lado eu já escolhi. Reconhecendo as pegadas de minha mãe e nossos ancestrais em quem eu sou eu coloco que o branco não é a única cor que há em mim. Mesmo não sabendo se eu estou nos pés de Chiquinha Gonzaga entre rodas de Lundu e mesmo sabendo que a diversidade presente na paleta de brancos me identifica tanto para brancos quanto para negros, as referências que me compartilham e dividem alimentam em mim a questão: o que é ser branco (numa sociedade racista)? O que é ser negro (numa sociedade racista)? É só um soluçar de dor? Cabe no "Canto das Três Raças"?

Se, em um resultado da interracialidade, o que é branco dilui o que é negro e o que é negro colore o que é branco, talvez, nessas circunstâncias, a solucao de duas cores seja uma luta. No meu caso, nessa luta em mim, é o branco que mais é visto. Por isso para mim, em meio a uma estrutura racista, me religar aos vestígios dos meus ancestrais maternos e escolher o lado deles é uma forma de luta. Construir a minha identidade como mulher parda e concomitante a ela criar o meu espaço envolve escolhas delicadas. E aqui a minha escolha é usar este espaço que eu crio para extrair a dimensão coletiva das minhas vivências e para desaguar toda a minha admiração por aquelas e aqueles que dizem o que precisa ser aprendido por todos nós. E não há melhor maneira de reverenciar do que escutar. É para escutar que escrevo e aqui me sento.

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